A madrugada não pede permissão. Ela se impõe. O concreto ainda guarda o calor do dia quando o avião encosta sem anúncio, sem bandeiras, sem testemunhas interessadas. Não há imprensa, não há discursos preparados, não há celebração à espera. O cenário é funcional, quase anônimo, como se o próprio mundo soubesse que certos momentos não exigem plateia. A noite engole o som distante da cidade e deixa apenas o ruído seco do procedimento.
No centro do corredor de luz artificial, caminha um homem que durante anos acreditou controlar o ritmo do país, o tempo da história, o medo alheio. Não há algemas exibidas nem violência teatral. Ele caminha porque não existe alternativa. Porque o poder, quando acaba, não grita — ele obedece. Cada passo carrega o peso acumulado de decisões tomadas sem retorno, o tipo de caminhada que não permite negociação com o passado.
Ao redor, rostos sem identidade. Uniformes sem vaidade. Nenhuma insígnia além do estritamente necessário. Não estão ali para julgar nem para fazer história. Estão ali para concluir. O registro do momento é frio, quase burocrático: data, local, movimento. Um carimbo a mais em um arquivo invisível onde se acumulam nomes que acreditaram ser exceção. O avião ao fundo não representa fuga nem salvação. Representa deslocamento. O último.
Não há triunfo no ar, porque não se comemora o fim do previsível. O ciclo apenas se fecha, como sempre se fechou antes. A porta se abre. A porta se fecha. O motor ganha força e cobre qualquer tentativa de romantização. Não há justiça poética, apenas consequência. A madrugada segue indiferente, como seguiu em Roma quando homens confundiram poder com eternidade, como seguiu em impérios esquecidos, como seguirá sempre que alguém acreditar que o tempo pode ser controlado.
A frase que atravessa tudo isso não nasce naquela pista nem naquela noite. Ela vem de muito antes, atravessando séculos como um aviso ignorado enquanto ainda se está no topo. Não é ameaça, não é promessa, não é slogan. É constatação histórica. Um lembrete simples e implacável de que todo poder sustentado pelo medo termina do mesmo jeito. Os nomes mudam. Os rostos mudam. Os idiomas mudam. O desfecho não.
Quando o avião desaparece na escuridão e a pista retorna ao silêncio operacional, não sobra imagem para culto nem mártir para discurso. Sobra apenas o registro seco de mais um ciclo encerrado. A história segue em frente, como sempre seguiu depois de cada tirano, sem pressa, sem remorso, sem exceções. E o que permanece, gravado não em pedra, mas no tempo, é a sentença que nunca precisou ser dita em voz alta — Sic Semper Tyrannis.